
“Só
no Brasil” — eis aí três palavras que todo brasileiro costuma ouvir,
365 dias por ano, a respeito de coisas que só acontecem por aqui,
geralmente muito ruins, e que são desconhecidas no resto do mundo. Em
geral começam como uma discreta trapaça no uso do dinheiro público,
depois se transformam num hábito nacional e, no fim, acabam virando um
maciço conto do vigário aplicado o tempo todo pelos governos — que, como
viciados em drogas, não conseguem mais viver sem ele.
É o que
acontece, entre tantos outros pecados exóticos, com a “publicidade
oficial”. Qualquer cidadão sabe muito bem do que se trata ─ são esses
anúncios que governantes de todos os níveis, da alta administração
federal a remotas prefeituras do interior, pagam (com dinheiro do
orçamento, é claro) para publicar em jornais e revistas, no rádio e na
televisão. Dizem, ali, quanto são bondosos, eficazes e trabalhadores ─ e
mostram as obras de seus governos, reais ou imaginárias, como se
estivessem fazendo um imenso favor à população que pagou por elas.
A maioria dessa publicidade, para não dizer toda, trata o contribuinte
como um perfeito bobo alegre, pronto a acreditar em qualquer coisa que
lhe dizem. Ainda recentemente, em São Paulo, o cidadão podia ver na TV,
pago com o seu dinheiro, um anúncio do governo do estado que começava
com a imagem de uma vaca, filmada de ré; a câmera se deslocava, então,
para mostrar o que deveria ser uma rija lavradora, entregue à sua labuta
de tirar, às 5 da manhã, o leite nosso de todo dia. Mas o que aparece é
uma graça de garota, com umas botas de cano alto que poderiam ter saído
de uma loja Hermes, jeans de grife e sob a luz do meio-dia, com as mãos
a distância segurando as tetas do bicho. Ela diz, aí, que sua grande
alegria na vida é saber que o leite tirado com o seu trabalho é
distribuído pelo governo para crianças pobres etc.
A única
coisa real, no anúncio todo, é a vaca. Não há inocente aqui; todos os
políticos, sem nenhuma exceção, fazem o mesmo quando estão no governo.
Nesse assunto, ninguém critica ninguém, no conforto geral de saber que
delitos coletivos nunca são realmente condenados. É assim que permanece
viva, cada vez mais, a publicidade oficial ─ uma aberração só vista no
Brasil. Dá para imaginar o governo da Itália, por exemplo, gastando
fortunas na mídia para dizer “Itália ─ um país para todos”? Ou algo
assim: “Prefeitura de Londres ─ antes não tinha, agora tem”? Não dá. O
funcionário que sugerisse uma coisa dessas seria provavelmente
encaminhado a uma instituição psiquiátrica.
Neste momento, com a
campanha eleitoral, a coisa pega fogo. No ano passado, só o governo
federal gastou mais de 3 bilhões de reais em “comunicação”, entre
publicidade e patrocínios. Juntando a isso estados e prefeituras, o
volume de gastos entra em mares nunca dantes navegados. Os políticos
alegam que é pouco, diante do total de quase 90 bilhões aplicados no
mercado publicitário brasileiro em 2011. Pode ser, mas o dinheiro não é
deles ─ é do cidadão, e está sendo jogado no lixo para pagar os elogios
que fazem a si próprios. Sua desculpa é que os governantes têm o dever
de “informar a população” e “prestar contas” de como estão aplicando o
orçamento. É uma piada. Não informam coisa nenhuma, e, na hora de
prestar contas de verdade, fazem justamente o contrário: desligam a
chave geral para deixar tudo o mais escuro possível.
Os órgãos
de comunicação, sem dúvida, se beneficiam da publicidade oficial; nenhum
deles é uma santa casa de misericórdia, e todos têm de pagar suas
despesas. Mas a imprensa de verdade vive do apoio do seu público e dos
anúncios privados que ele atrai, e não de verbas publicitárias do
governo. Seu único mandamento, nessa história toda, é manter a própria
independência. E os que não mantiverem? Problema deles. Veículos que, em
troca de anúncios, só publicam o que interessa ao governo, e escondem
tudo o que não interessa, têm de resolver isso com os seus leitores,
ouvintes e espectadores; se eles desconfiarem que estão sendo enganados,
podem ir embora.
O certo, no fim de todas as contas, é que o
governo não deveria pagar um único tostão para a mídia publicar sua
propaganda. Eis aí mais uma coisa que nos separa, por exemplo, de um
país como a Alemanha, onde publicidade oficial não existe. É que a
Alemanha, coitada, é apenas a Alemanha. Já o Brasil é o Brasil ─ aqui há
dinheiro de sobra para o governo jogar pela janela. Somos um país onde a
população é riquíssima. (GUZZO)